Waldemar Bastos, voz da fraternidade

"Aos 18 anos a polícia secreta prendeu-me. Por que? Porque era um artista. Pensavam que assim travavam a minha criatividade e isso melhorou mais ainda a minha entrega à arte."

A filóloga galega Bárbara Nouche, colaboradora do Grandes Vozes, no bairro do Chiado lisboeta com Fernando Pessoa


Começa o programa com diálogo entre literatura e música. Um cantor da Corunha (César Morán) interpreta um poema dum escritor de Lugo (Cláudio R. Fer). É o “Ama-me anarquista”. Uns minutos depois é uma ouvinte da Catalunha a colaborar com o programa solicitando um tema de Luar na Lubre, porque ao ouvir essa música sente-se “como em diálogo com a Galiza”. Mas nesse diálogo participa também uma cantora portuguesa, Sara Vidal, que nos leva pelos caminhos do Fim da Terra ao ritmo do “Canto de Andar“. Assim é o Grandes Vozes, essa gigantesca ponte de comunicação intercontinental que em só uns minutos nos desloca a atenção para outro lugar bem diferente, como é o caso da conversa entre a Bárbara, o Gabriel e o Waldemar.
A Bárbara, galega de Boimorto (“aldeia maravilhosa do centro da Galiza”, diz), estudou o grau de língua e literatura galegas na USC e posteriormente o mestrado de docência na UDC. Agora complementa formação no Centro de Estudos Galegos da Universidade Nova de Lisboa, onde Gabriel André é professor. O seu contertúlio é Waldemar Bastos, cantor angolano que combina Afropop com Fado e ritmos brasileiros.
A entrevista é mais uma intervenção em favor da fraternidade. Como diz o Waldemar: “Pra quê tanta dor, pra quê tanto ódio?”. Não faz sentido. “Se somos irmãos, temos que dar as mãos”.

Elvis Afonso, a voz de Embu das Artes

O artista brasileiro, que participou em Lisboa no festival "A Praça Convida", protagonista do nosso programa nº 94

O programa 94 começa com “Estradas no céu” em dueto do Valas e a fadista Raquel Tavares. A seguir, outro ritmo e outro país: os Raiva, da Galiza, com “Fartos“. A primeira parte, de diálogo entre a Galiza e Portugal, tem ainda as intervenções do Diogo Piçarra e o Brais Morán, o primeiro a falar do Paraíso imaginário e o segundo a dizer que o verdadeiro Paraíso está na Costa da Morte. Todas estas Grandes Vozes seleccionadas por Marco Pereira e apresentadas por Edilson S. Tavares e Matías Nieza são um preâmbulo da parte central do programa: a conversa do galego Gabriel André e da cabo-verdiana Vera Rocha com o brasileiro Elvis Afonso.
Num programa como o Grandes Vozes a melhor das apresentações é a música. Foi por isso que nada mais a Vera dizer o seu nome, o Elvis apanhou a viola e começou a cantar. Depois, a conversa. “Estou em Lisboa há 26 dias. Sou de Embu das Artes“. De Embu das Artes? Nesse caso é preciso comentar mais coisas: “é mundialmente conhecida. Uma cidade caracterizada pelo artesanato. Com muita música ao vivo”.
A música acompanha na vida o Elvis Afonso desde há uns 25 anos. No início era a sua uma música de blues e depois virou para a música popular brasileira. Quando os locutores perguntaram pelas expectativas em Portugal, obtiveram resposta rápida:
-Na verdade, eu quero viver. Quero trabalhar com artes. Artes plásticas, fotografia… a música é um caminho a mais; é uma paixão.
Assim é este artista da área metropolitana de São Paulo, o protagonista do “Deixe Falar” do programa 94.
Na parte final do programa, o diálogo foi ainda mais alargado. Os microfones estavam nas ruas de Lisboa e aproveitamos para conhecer as preferências musicais da audiência. Foi então o momento dos Trovante, do Sérgio Godinho e de Madredeus.
Magnífica conversa. O modelo de relacionamento natural entre os nossos diferentes sotaques.

Muito obrigado, Lisboa!

O concerto do artista galego Brais Morán foi um grande sucesso


O festival “A Praça Convida” foi um autêntico sucesso e nós queremos transmitir os parabéns a toda a organização. Magnífico trabalho do professor Gabriel André, da sua colaboradora Vera Rocha e de todos os agentes sociais envolvidos na iniciativa, representantes do Centro InterculturaCidade, da Junta de Freguesia da Misericórdia e ainda de diversas casas comerciais que apoiaram os eventos. Obviamente, também estendemos os parabéns para todos os artistas que participaram no festival, em cuja representação estiveram no nosso programa Edson Raposo e Elvis Afonso.Na última sessão o protagonismo foi para o artista galego Brais Morán, que chegava a Lisboa para apresentar o seu novo disco:  No mato do desespero (uma homenagem galega ao José Craveirinha). Segundo podemos ver no facebook do próprio cantor, o ambiente foi magnífico. Estas são as palavras de agradecimento do Brais Morán:

Espetacular, Lisboa!!!
Obrigadão a toda a malta&galera que lá estava dançando o tempo tudo!
Adoro tocar e cantar para um público como vocês. Gente linda do mundo inteiro unida: Galiza, Portugal, Brasil, Angola, Cabo Verde, França, Israel, Índia..
São demais!
A ti, sobretudo, Gabriel André, por nos trazer e pela união das línguas abrindo fronteiras.

Ao Centro InterculturaCidade, ao Centro de Estudos Galegos-Universidade Nova de Lisboa e à  Junta de Freguesia da Misericórdia por nos receberem tão altamente!

Obrigado, Ricardo A Carvalho, pelo documento: #BMNoMatododesesperoemLisboa25deagosto2018.

Longa vida!!!

Na opinião de um grupo de pessoas galegas que estavam entre o público: “o concerto foi um éxito contundente. A música do Brais é aquilo que os jovens lisboetas querem. Em resumo: só não havia mais gente porque não havia mais praça”.

BRAIS MORÁN AO VIVO EM LISBOA

Artista galego lança o seu novo disco "No mato do desespero" no evento "A Praça Convida"

“A praça convida” é o título do festival que reúne em diferentes espaços públicos de Lisboa artistas dos países de língua galego-portuguesa. A imagem corresponde ao cartaz anunciador do concerto do galego Brais Morán.

Brais Morán Mato, corunhês nascido em 1983. Especialista em História da Arte e em Museologia e Crítica Contemporánea. Chega a Lisboa na sua qualidade de guitarrista e vocalista de pop para fazer lançamento do seu segundo disco No mao do desespero (2018). O lugar de encontro será a praça de São Paulo e a cita está agendada para as 21:00 horas do sábado, dia 25 de agosto. A iniciativa é uma feliz parceria do CentroInterCulturaCidade, da Junta de Freguesia da Misericórdia, da Confederação de Jovens Agricultores, do Centro de Estudos Galegos da Universidade Nova e do Café Estúdio KLG.t

Grandes Vozes do Nosso Mundo, que colaborou decididamente na divulgação e na retransmissão do ambiente, oferece agora a toda a audiência as letras do disco protagonista da jornada.

 No Mato do Desespero



QUANDO IMOS PARA ESSE LUGAR

Canto pra os nenos da Costa da Morte (x2)

e às mulheres que vêm do mar.

Canto pra as nenas da Costa da Morte (x2)

e aos homens que amassan o pão.

Canto pra quem lhe acompanha a sorte,

canto tambén pra os que não têm sorte

e que ainda lhes pode chegar.

Canto pra as nenas que  berran bem forte,

canto pra os nenos que bebem da fonte

onde a música lhes faz medrar.

Canto pra a gente que não faz reproches [censuras] (x2)

e que vive sem medo a lutar.

Canto na Terra sem ver o horizonte,

canto co’a força do sangue do norte

quando imos para esse lugar.

NO MATO DO DESESPERO

Hoje encontro-me no mato do desespero

pois acredito nisso que dizem:

ainda que sempre se chega nunca mais se alcança.

E é por isso que sempre penso nessa visão do futuro

E alguém disse que temos força

pra cantar-lhe a tanta esperança.

Eu penso que ainda há mais

que uma simples selvagem companha

e nunca desespero, irmão.

Estamos juntos numa Terra Imaginária…

E sem fronteiras, meu irmão,

chegaremos juntos a onde quiseres que nos vejam.

E só faz falta um pouco de paciência

numa longa aventura

que embora não o pareça sempre medra.

Hoje encontro-me no mato do desespero…

Hoje caminho pelo mato do desespero

E espero cantando…

SANGUE DO NORTE

Só eu sei onde morre o sol

a cem metros de aquí.

Já crucei este eclipse só

na mesma estação.

E não vou pensar

noutra explicacão.

Já cansei de ouvir que pra ser melhor

tenho de ir para o sul.

Se a calor de ali não me ilumina assim…

Já estourei o meu coração

Para sobreviver.

Vivo aqui e todo é magia,

levo o sangue do norte.

Trabalho aqui / sigo aqui.

E sinto esperança,

sou um guerreiro do norte.

E alguns dizem:

A onde irás…?

TERRA QUE SONHARÁS

Alma de navegante

Passe o que passe olha pra diante

Quando começas a tua história

Traz o que sai da tua memória

Águas vêm do norte

Vão na procura da nossa sorte

Giram mudando o rumo

Fazem que apareça um novo mundo.

Terra que sonharás…

Chega essa luz que esconde o temporal

Traz novos sonhos que empurran muito mais alá

Saem de um tesouro, vivem comigo em paz

Trazem-me recordos que habitam em cousas reais.

Conto aventuras que mudam a lei.

Alma de viajante

Tem um destino ilusionante

Faz que o vento e as ondas

Sejam a guia da sua eufória.

Alma extravagante

perto do Paraíso distante

Sou pirata que canta

pelo caminho da liberdade.

Terra que sonharás…

Conto aventuras que mudam a lei

VALARÉS

Só es solitário quando queres um pouco de inspiracão

Sentes-te um estranho mas só precisas ter respiração

Soa uma guitarra e só queres este mar pra conversar

Hoje cantam grilos mas não é uma noite de verão.

Dedica-me um minuto como aquele

Desses que já não se podem ter

Toda a infãncia que não se perdeu

Qando era um neno em Valarés

E sonhei toda a noite co’a maré

Quando só se escutava o atardecer

E joguei com a areia entre a pele

E lembrei que ali me sinto bem

 AS CORES DO MATO

Que me leve o Demo se não canto mais.

Que me leve Deus se há luz mais alá.

Que marche a sombra com o vento deste temporal.

As cores do mato já falam de como avançar.

Levo anos por aqui perguntando-me se ao fim poderei sobreviver.

Ninguém entende que o meu “Ser” não escolhe como ser.

Só funciona porque “é”.

O importante é respirar cada dia um pouco mais apesar do temporal.

A energia do que fazes é a procura de encontrar

o caminho pra chegar.

Ieee…Sempre chego ao final co’a esperança na mão

Ieee…Sempre podo encontrar a paz noutro lugar.

Levo tempo em desespero,

e que vém e que vai co’a ilusão de voar.

E desperto num concerto e a gente que está não para de dançar.

Quando o vento chega aqui sei que o ar está para ir

A outro mundo mais feliz.

Há caminho pra rodar e ondas querem navegar

pola minha Beiramar.

A ESPERANÇA DO DESESPERO

Há caminhos no mundo que não nos separan

São os que unem as forças e nos acompanham

Há momentos onde aparece a magia

E a luz volta a ti…

Há momentos em que perdemos a calma

Eram desejos rotos de mentes perdidas

Eram intentos vacios que não funcionavam

Eram caminhos de sombras que medo nos davam

Era um impulso frustrado que nos esgotava

Não havia mais…

Havia mais mas eu só tinha que inventá-lo!

Era a melhor arma do passado!

E haverá mais soluções para o futuro

Se o que foi, agora é mais maduro!

Tempo passou para encontrar a esperança

E hoje sigo provando de muitas maneiras

É uma longa viagem que pede paciência

É uma luta contínua que faz que aprendas

Não há caminho de rosas se esqueces que medram

Sempre há vida em qualquer lugar.

Há caminhos que avançam c’o tempo parado

Pasan por desertos roxos e abandonados

São o futuro da gente que estava chorando

São os que trazem os amores que duram mais anos

São os que nunca buscavas e voam mais alto

E hoje unimos as forças sem medo ao que venha.

Sigo buscando a esperança do desespero…

A praça convida ao encontro

Festival intercultural celebrado em Lisboa protagonista do programa 93 do Grandes Vozes

O Grandes Vozes foi gravado numa praça de Lisboa. O professor universitário Gabriel André entrevistou o cantor baiano Edson Raposo.

O Grandes Vozes é paradigma do diálogo intercultural. Desta vez, no programa número 93, com o coordenador Marco Pereira de férias em Trás-os-Montes, desde Burela tomaram os mandos da nave um galego (Matías Nicieza) e um jovem caboverdiano (Edilson S. Tavares). O destino da Ponte Musical era o Jardim do Príncipe Real, em Lisboa, onde se celebra o evento “A Praça Convida. Cultura e Cidadania em espaços públicos“, uma excelente iniciativa da Junta da Freguesia da Misericórdia, o Centro InterCulturaCidade, a Confederação de Jovens Agricultores e o Centro de Estudos Galegos da Universidade Nova de Lisboa.
Na capital portuguesa estavam outros protagonistas do programa da Rádio Burela: o professor galego Gabriel André (do Centro de Estudos Galegos) e o artista baiano Edson Raposo. Os primeiros temas da conversa: a chegada do artista brasileiro a Portugal (em 2001) e a sua participação nos Dragões do Samba e nos Kussondulola, banda muito conhecida na Galiza pela sua presença no Xabarin Club (programa infantil com muitíssima audiência emitido na TVG).
Ainda com a estridência da cidade ao fundo, o entrevistador pediu ao artista convidado uma primeira música ao vivo e o Edson Raposo cantou a história da Teresa, uma mulher africana emigrada em Lisboa.
A seguir, chegou o tempo das novidades e através da entrevista soubemos que o baiano prepara um novo disco, que o disco terá dez canções de estilos diferentes, mas sempre com presença de ritmos baianos em simbiose com outros procedentes da África.
Como sempre, de grande ajuda o capítulo dedicado às sugestões musicais, uma delas o angolano Yuri da Cunha.