Selma Uamusse

África a dialogar com o mundo sem perder a identidade

O Peregrino por Rodrigo Leão, Selma Uamusse , o Coro Gulbenkian e a Orquestra Gulbenkian em VEVO.

A equipa do Grandes Vozes do Nosso Mundo está a desfrutar de um descanso bem merecido trás esta segunda temporada de encontros mágicos e emoções intensas. Contudo, queremos acompanhá-los de alguma maneira nestes meses de repouso. Nas próximas semanas iremos publicando algumas das nossas entrevistas em formato texto para nos poderem ler tranquilamente na praia, na montanha ou sentados na esplanada de um café urbano.

Há duas semanas entrevistávamos a moçambicana Selma Uamusse. A cantora conseguiu tocar os corações compostelanos com a sua atuação no festival Terra da Fraternidade, a primeira oportunidade que tivemos na Galiza para assistir a um dos seus concertos. A continuação, a transcrição da entrevista:
 

Conversa com a nossa convidada
 

[Marco Pereira] Selma Uamusse, muito boa tarde!

Olá, boa tarde!

[M] Muito obrigado pela gentileza de atender a chamada do Grandes Vozes do Nosso Mundo.

Eu é que agradeço o convite, obrigada!

[M] Onde é que está neste momento?

Neste momento estou em Lisboa, em minha casa a preparar as malas para sair amanhã de manhã muito cedo até Santiago.

[M] Amanhã vai estar na capital da Galiza. Vai viajar então amanhã de manhã.

Viajo muito cedo, mas sim, viajo amanhã de manhã.

[M] Antes de nada desejo que tenha uma boa viagem e que tudo corra o melhor possível.

Sim, obrigada. Vai correr, certamente.

[M] Terra da Fraterninade, título formossíssimo para um festival. Como acolheu a chamada para participar nele?

Fiquei super feliz. Penso que o programador Vítor Belho viu o meu concerto em Lisboa aquando de um festival/exposição de música, o MIL (Lisbon International Music Network). Foi com muita alegria que recebi o convite e fiquei ainda mais feliz quando vi o cartaz. Conheço alguns dos músicos que lá estão, alguns que admiro muito, e obviamente tenho uma grande simpatia pela Galiza e então fiquei muito feliz em poder participar e ainda por cima em poder tocar num sítio tão especial onde estive muitas vezes só a passear.

[M] Então será a primeira vez que toque na nossa terra…

Sim, vai ser a primeira vez que toque na Galiza. Já estive com outras formações como backing vocal há muitos anos, como a banda de reggae Mercado Negro, com a qual viajei a Pontevedra, mas será a minha estreia a solo num concerto desta envergadura.

[M] Quais são os seus vínculos com a música galega?

Não sendo muito conhecedora da música galega, tenho algumas amizades musicais na Galiza. Tive a oportunidade de trabalhar aqui em Lisboa com Narf, Fran Pérez, que infelizmente já não está entre nós. Há muito pouco tempo cantei também uma canção com a Uxía, uma grande referência, e por ter tocado com Narf fiz uma atuação com o percussionista Paulo Silva. Além disso tenho alguns músicos amigos que têm uma relação muito próxima com a Galiza, como os moçambicanos Timbila Muzimba ou a Aline Frazão, que é angolana mas que também esteve muito tempo na Galiza. Naturalmente, também tenho conhecido outras pessoas através deles, há uma mistura de música com amizade. Obviamente, também já estive em Santiago e em Pontevedra de férias. No outro dia eu dizia à Uxía que achava que a Galiza era uma extensão de Portugal e ela disse: «Não, não. Portugal é uma extensão da Galiza».

[M] Só esteve em Santiago e Pontevedra ou tem estado em mais lugares da Galiza?

Passeei um pouco, mas assim que conheça bem sem me perder muito, será Pontevedra e Santiago de Compostela.

[M] Agora o meu colega Edilson vai colocar-lhe um par de questões.  [Edilson] Olá, Selma.

Olá, tudo bem?

[E] Tudo bem. E consigo?

Tudo bem, parece-me ouvir uma voz muito moçambicana.

[E] Agora que se aproxima o seu concerto no festival Terra da Fraternidade, diga-nos: como são as suas músicas?

A minha música tem muita influência de aquilo que são os instrumentos tradicionais moçambicanos, em especial a timbila e a mbira. Também utilizo outros instrumentos, como a tamba e a kalimba, que são instrumentos tradicionais de outras partes de África, mas a timbila e a mbira são dois instrumentos muito importantes na composição da música que faço, para além de cantar em alguns dos dialetos moçambicanos. Contudo, aquilo que eu mais tendo fazer, porque venho de um background de música gospell, comecei a cantar rock, estudei jazz e já fiz muitas coisas diferentes como funky e soul, é uma fusão de todas as minhas influências mais acidentais com aquilo que eu acho que é mais bonito e especial na música de Moçambique. São ritmos que não são nada conhecidos, existem muitos e vamos tentando estudar a rítmica e as harmonias moçambicanas para fazê-las fundir entre as línguas, os instrumentos e as nossas influências numa sonoridade nossa. Não me tento comparar a ninguém, chamo-a de nossa.

[Matías Nicieza] Dizia a nossa convidada que lhe parecia ouvir uma voz muito moçambicana, mas o Edilson não é moçambicano, o Edilson é caboverdiano.

Então, eu sentia algum calor africano [risos].

[E] Somos irmãos, não é?

Somos irmãos, sim, somos irmãos [risos].

[E] Adianta-me já algo de como vai ser o concerto? Seduza através das ondas as pessoas que ainda não tenham decidido ir!

Para as pessoas que não decidiram: contem com muito ritmo e muita dança. Gosto muito de contactar com o público, mas nem todas as músicas são para dançar. Gosto um pouco de falar de alguns assuntos que são mais sensíveis, portanto tenho alguns temas mais para reflectir. Tenho também duas surpresas, duas surpresas galegas, por isso espero que as pessoas vão e que estejam lá em grande força a dançar com alegria. Acho que, acima de tudo, devem ir porque não existem muitos artistas moçambicanos a trabalhar. Sei que Timbila Muzimba e Cheny Wa Gune têm trabalhado muito na Galiza, mas não há muitos artistas moçambicanos; nomeadamente não há muitas artistas mulheres. Se tiverem curiosidade, acho que não se vão arrepender de irem ver o concerto.

[M] Eu também acho que não. Aproveitando esta entrevista, seduza-nos e seduza também o auditório para tentarmos conseguir as suas músicas. Fale-nos dos seus trabalhos discográficos, por favor.

Aquele que eu vou apresentar amanhã é o meu primeiro trabalho discográfico a solo como Selma Uamusse, com esta sonoridade. Anteriormente já gravei com um compositor português muito conhecido, o Rodrigo Leão dos Madredeus. Trabalhei com ele durante dois anos e gravei um disco com a orquestra da Gulbenkian. Gravei três discos com Wraygunn, que é uma banda de rock, gravei um outro disco com Cacique 97, uma banda de afrobeat, e tenho participado em discos muito diversos de músicos portugueses como Joana Barra Vaz, Samuel Úria ou Medeiros/Lucas, que cantam pop, rock, indie… tenho feito hip-hop com o Valete… tenho feito muitas coisas. Porém, penso que o mais relevante será este meu primeiro disco a solo, que está prestes a sair este ano ainda. Espero que, enquanto o disco não sai, as pessoas fiquem atentas à minha página no Facebook, onde vou pondo algumas das músicas. O disco está pronto, só falta nascer e estar à venda para toda a gente.

[M] Ainda não sabe quando é que vai ser publicado?

Não, ainda não temos uma data, depende de editores. Enquanto o disco não é editado, temos concertos para dar e espero que este seja o primeiro de muitos concertos na Galiza. Senão, têm que vir até Portugal para assistir.

[M] Esperamos bem que sim. Antes de finalizar, temos outra pergunta: quais são as suas referências musicais lusófonas?

Tenho muitas referências. De África, a referência mais antiga e uma das mais importantes é Miriam Makeba, enquanto detentora de uma mensagem muito revolucionária e muito ligada aos direitos cívicos. A Miriam Makeba é fundamental. Em Moçambique têm sido referência para mim, até porque canto dois temas, o Eduardo Durão, que toca timbila, e o Chico António. Gosto muito também de Fany Mpfumo, de Ghorwane, que são assim os mais antigos, mas sou também muito admiradora de músicos mais recentes como Timbila Muzimba e a Isabel Novella. Fora do circuito moçambicano, sou muito apreciadora de bandas de Mali e de Senegal; gosto muito de Amadou & Mariam, de Rokia Traoré, da banda Songhoy Blues. Do Brasil, Bexiga 70, que vai estar também no festival, Marcelo Camelo ou Elza Soares, entre outros. Em Portugal tem os Cacique 97, Samuel Úria, Ana Moura, Gisela João, Cristina Branco… tem muitos. Tem também a Celina da Piedade, com quem trabalhei muito e que estará na Galiza na próxima semana, e o Rodrigo Leão, que também é outra referência. Há uma infinidade de música.

[M] Grandes artistas…

Sim.

[M] Foi um grandíssimo prazer o poder falar consigo, muito obrigado.

O prazer foi todo meu.

[M] Aproveito para dizer-lhe que esperamos que algum dia venha pelo norte da Galiza, até Burela, e possamos apreciar a sua música e vê-la ao vivo.

Muito obrigada, espero que seja a primeira de muitas vezes na Galiza para conhecê-la melhor e que possa ir a Burela em breve.

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