P77 – Arlindo Évora, dos Cordas do Sol

Foto: http://www.cordas-do-sol.com

No nosso programa nº 77 acompanharam-nos os Cordas do Sol, uma banda da ilha de Santo Antão com uma sonoridade diferente àquela que chega habitualmente à Galiza desde Cabo Verde. Como o nosso convidado Arlindo Évora nos explica, a inovação constante, aliada a umas raízes santantonenses sempre presentes, fazem parte do espírito e do modo de ser deste grupo. A equipa do Grandes Vozes declara-se desde hoje nova “corda” e espera poder contar com eles no nosso país brevemente.

 

Arlindo Évora, muito boa tarde! 

Olá, boa tarde! Tudo bem por aí?

 

Tudo! E por aí? Está tudo bem?

Está tudo bem. Um pouco de calor com essa temperatura de Cabo Verde. Já sabe como é.

 

Certo! Estamos em comunicação direta entre a Galiza e Cabo Verde. Que grandíssimo prazer poder falar consigo! 

O prazer é todo nosso. É um prazer estar com essa rádio maravilhosa que trabalha para  a divulgação e promoção dessa cultura lusófona e das línguas relacionadas com o português.

 

Antes de mais, quero apresentar-lhe o seu compatriota Edilson Sanches.

Boa tarde, Arlindo!

Então, Edilson? Boa tarde, tudo dreto?

 

Eu nasci na Ilha de Santiago, na comunidade de Ribeira da Barca e sou vizinho do Tcheka. Conhece-lo?

Conheco o Tcheka, sim, é claro.

 

O nome da banda é Cordas do Sol. Os músicos são da Ilha de Santo Antão, em Cabo Verde. 1994 foi o ano da génese do grupo. Agora, com quase 25 anos de história levam editados cinco discos. Para os conhecer mais em profundidade estamos em conversa com Arlindo Évora. 

Primeira perguta: porque Cordas do Sol?

Cordas do Sol tem um significado objetivo: cordas são as da guitarra e sol é também a designação de uma das cordas. Do ponto de vista mais metafórico, refere-se também à energia inacabável do sol de Cabo Verde durante os 365 dias do ano. Além disso, também costumamos dizer que cada um dos fãs ou seguidores dos Cordas do Sol é uma dessas cordas.

 

Quem formava o grupo em 1994?

Costumamos a dizer que somos a banda com a família mais longa de Cabo Verde. Éramos formados por grupos de amigos, mais ou menos sete ou oito pessoas, mais tarde fomos doze e agora, dado que já somos uma banda profissional, os números diminuíram e já ficaram tecnicamente inalterados.

 

A que se dedicavam?

Normalmente eram amigos que se agrupavam à noite para ouvir música ao vivo de serenatas. No Paul, o local de nascimento de Santo Antão, ainda não havia luz elétrica (estamos a falar de 1995). Realmente já existia luz elétrica, mas só até à meia-noite. A partir de aí, víamos graças ao luar e fazíamos andar as serenatas de casa em casa… é um vale tão lindo! Começamos assim e mais tarde formamos uma banda a fim de fazer todo esse trabalho que, por sorte, viermos a realizar.

 

Eu queria que nos contasse como foi a experiência da gravação do primeiro disco.

Depois a Cordas do Sol se ter afirmado como uma banda local, a partir das nossas pesquisas e das pesquisas dos anos 60 e 70 sobre a tradição oral de Santo Antão, elaboramos um projeto sobre géneros musicais esquecidos nessa ilha da montanha e, após algumas saídas, sentimos a necessidade de gravar um disco para fazer um registo. Foi uma experiência memorável, tendo em conta que era a primeira vez e os elementos não tinham hábito de estar em estúdio. Nessa altura havia poucos home studio e nós tínhamos a sorte de ter um, mas existia aquela ansiedade de estar no estúdio e fazer uma gravação. Por outra parte, não era uma questão bem conhecida e queríamos ter uma afirmação da nossa e fazer uma afirmação da nossa língua e do sotaque genuíno da ilha de Santo Antão, o qual era grande responsabilidade. Foi uma experiência muito boa, um disco genuíno e ingénuo, mas com muita disciplina e carinho.

 

Poderíamos dizer que existem três grades linhas estilísticas no repertório da banda, não é assim?

É verdade e fico satisfeito de saber que vocês descobriram que isso está aí patente. De facto, são três linhas: temos esse disco mais ingénuo e feminino em que optamos pelas guitarras acústicas, pela captação das percussões e as vozes. O segundo disco, Marijuana, já é uma afirmação do primeiro, Linga d’Sinatnton. Depois, assim que já tínhamos conquistado os grandes festivais de Cabo Verde e realizado digressões no estrangeiro, decidimos realizar uma paragem estratégica e voltamos com uma banda reforçada a nível da sonoridade e de composições. Introduzimos uma bateria e uma guitarra base e trouxemos uma voz feminina com uma potência vocal excelente; alguns elementos tiveram que sair, outros entraram e outros se mantiveram. Isto distanciou um pouco o novo trabalho daquilo que eram os primeiros discos. Foi aí quando lançamos o que nós chamamos de “Segunda Temporada” do Cordas do Sol, que vinha ser o Lume d’Lenha.

Assim que conquistamos vários prémios com esse disco, com essa sonoridade ou com esse estilo e ter ganho inclusive nos Cabo Verde Music Awards ao melhor álbum acústico, que era do mais cobiçado nessa altura. Também recebemos os troféus à Melhor Música do Ano e ao Melhor Batuque/Kola Sandjon. Com esta estratégia retiramo-nos um pouco da cena também e agora trouxemos o Na Montanha, que é outra sonoridade, mas mantendo a mesma linha vertical. Este disco mostra um Cordas do Sol fiel ao seu estilo, mas com essa dinâmica de realizar fusões de estilos e trazer novas sonoridades. Cada disco é diferente, de modo a permitir aos ouvintes identificar o disco com só ouvir. O próximo disco vai permitir-nos apresentar um novo estilo, com pequenas diferenças, que é o que diferencia os Cordas do Sol.

 

Nesses quase 25 anos já estiveram ao vivo em todas as ilhas do arquipélago?

Exato.

 

A maior parte das atuações foram nas ilhas de Santo Antão e de Santiago, não é?

Santiago e Santo Antão são duas ilhas maiores, com vários destinos, portanto podem movimentar mais gente. A nível de número, é possível, nunca parei para pensar. Contudo, já estivemos em todos os festivais e inclusive em Santiago em quase todos os concelhos onde se realizam eventos culturais. Isso nos dá uma grande satisfação.

 

E em Ribeira da Barca?

É a zona de nascimento do ex-presidente António Mascarenhas. Estivemos aí dois anos atrás. Estivemos no festival com o Beto Dias, um dos promotores. É um festival com funcionalidade social e adoramos. Foi uma honra.

 

Já fizeram alguma turné pela Europa? 

Estivemos em Madrid; em Lisboa e outras cidades portuguesas com Porto, Évora, Serpa e Vila Real; em Paris, onde fizemos uma série de concertos e onde estamos todos os anos; em Holanda; na Bélgica, mais concretamente em Bruxelas; na Suíça; em Marselha; na Alemanha… Agora estamos de regresso dos Estados Unidos, chegamos no dia 11. O nosso concerto foi no The Strand, uma das melhores salas da Nova Inglaterra. Viajamos muito.

 

Estiveram nos países onde há diáspora caboverdiana?

Sim, esse é o ponto forte. Apesar de participarmos em muitos festivais onde não há comunidades caboverdianas, o nosso forte é esse. O nosso público é de ascendência mista, mas os caboverdianos estão lá com a motivação máxima das nossas migrações.

 

Tendo publicado vários discos, como são agora os concertos?

É um pouco difícil, e ao mesmo tempo fácil, descrever os concertos. As pessoas querem ouvir todas as músicas e às vezes não é possível agradar toda a gente. Algumas pessoas estão à espera de uma música e outros de outra. É um desafio elaborar um repertório do Cordas de Sol hoje em dia. Tentamos utilizar todos os clássicos antigos que marcaram os Cordas do Sol juntamente com as canções novas. Há músicas que normalmente têm que fazer parte do repertório porque sabemos que vão fazer dançar toda a gente, mas é uma alegria ver que as pessoas ficam de pé aplaudindo e curtindo desde o início da entrada do palco até à despedida.

 

Uma síntese dos diferentes estilos.

Dentro de aquilo que nós fazemos, a nossa atuação tem uma coisa que não corresponde tão bem à imagem dos discos: a nossa sonoridade tem muita energia, muita base de percussões e coros. É uma atuação muito dinâmica. Às vezes metemos o reggae, as mornas, o slow, as coladeiras, o kolá san djan… há uma miscelânea de géneros e de músicas que nós tentamos tocar ao longo dum concerto.

 

Arlindo, antes de finalizar a entrevista temos outra pergunta. Queremos que nos faça meia dúzia de sugestões musicais de vozes do nosso mundo: do Brasil, de Portugal, de Cabo Verde… Quais são as suas vozes de referência?

Tenho muitas e não quero ser ingrato em fazer referências especiais, mas eu vou lembrar alguns assim que são bons e que vale a pena conhecer. O Grace Évora está com bom vibe, precisa de ser ouvido. A Assol Garcia também é uma voz excelente, assim como também a Cremilde Medina, uma jovem no despertar da alvorada com uma voz muito tranquila. O Tcheka é outros dos músicos que é preciso ouvir. Temos o Gilberto Gil, como sempre, capaz de cativar todas as pessoas. Outras vozes são o Seu Jorge, a Cesária Évora (rainha da morna), o Bana ou o Ildo Lobo. Eu cresci a ouvir a Amália Rodrigues em casa da minha mãe, com as músicas que apanhava nas rádios de Portugal, portanto é uma lembrança muito boa e sempre será uma referência.  Por outra parte, podem ouvir ainda a Ceuzany, uma voz potente que merece ser referenciada aqui.

 

A Ceuzany fazia parte do grupo Cordas do Sol.

Faz parte. Fez uma pequena saída para iniciar a carreira a solo, mas em junho já está de volta em definitivo, fazendo parte de uma carreira dentro de Cordas do Sol e em paralelo também.

 

Arlindo Évora, muito obrigado. Foi um gratíssimo prazer poder conversar consigo.

Abraço muito forte! Agradecemos muito por nos terem contactado e por mostrar as Cordas do Sol. Quero um dia passar por aí e contribuir tocando porque será uma onda muito positiva. Obrigado!

 

Serás bem-vindo aqui em Galiza, uma terra muito bonita e de boa gente. 

Se Deus quiser lá estaremos.

 

Boa tarde e muita sorte.

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