P73 – Ana Senlle e as Malvela

Vídeo: Fol Música

As nossas cantadeiras mais carismáticas acompanharam-nos esta semana no Grandes Vozes. Ana Senlle, diretora vocal do grupo, explicou-os as origens e  todo o trabalho que há detrás destas super-heroínas de Sanguinheda, capazes de fazer-nos dançar e sorrir com o melhor da tradição das duas beiras do Minho. Recomendamos que não deixem de ouvir esta entrevista cheia de situações anedóticas, com espaço também para as saudades e a memória.

 

Ana Senlle, boa tarde!

Boa tarde!

 

Muitíssimo obrigado por atenderem o nosso telefonema.

Obrigadas nós por se lembrarem.

 

Antes de mais, gostaríamos que nos resolvesse uma dúvida. O seu nome traz à memória uma artista de grande inspiração para este programa: aquela que cantava Tenho uma casinha branca na Marinha entre os loureiros.

É a Uxía.

 

A Uxía, exatamente. Se não estivermos mal informados, é da mesma vila?

De Sanguinheda, sim. De Mós.

 

Essa coincidência de apelido é casual ou também é da família?

É coincidência porque somos irmãs, é claro. Não pode ser de outra maneira.

 

Muito bem, então a coincidência é muito grande!

A coincidência é em dois apelidos, não só num.

 

Além disso, sabemos que a Uxía está bastante relacionada com a criação de Malvela.

Pois sim, dado que começou sendo um curso de cantos populares da Associação de Mulheres Rurais de Mós, onde eu também participei como aluna. Foi a partir desse momento quandocomeçamos a pensar em criar um grupo. A Uxía sempre está com as suas ideias e a cabecinha dela não para; foi ela quem disse que aquilo tinha que sair de alí e que aquelas mulheres tinham que sair de casa para se darem a conhecer. Fomos introduzindo aos poucos instrumentos no grupo, atuando e gravando discos até chegarmos aonde estamos agora.

As Malvela representam a voz das mulheres galegas com as suas canções da Terra. Quando essas mulheres de Sanguinheda se juntaram no curso de canto de Uxía Senlle, não podiam imaginar que seriam uma referência da nossa música e que levariam o seu ritmo e a sua alegria a teatros, festivais, festas e televisões. Os seus temas atuais procuram a irmandade com Portugal, algo que as Malvela demonstram desde o primeiro disco. Para sabermos mais deste carismático e numeroso grupo estamos hoje em conversa com Ana Senlle, componente e diretora vocal do conjunto.

Ana, essa afinidade com Portugal é algo que partilhamos no Grandes Vozes do Nosso Mundo, o programa de música da Lusofonia. De onde vem essa afinidade das Malvela com as terras de além Minho?

Vivemos aqui, a muito pouquinhos quilómetros da raia e sempre tivemos essa influência. Sentimo-nos irmãs dos portugueses porque realmente é assim. Fascina-nos a sua música. Por outra parte, também temos uma mulher entre nós com origens portuguesas, Carmen, e conserva na memória cantigas que aprendia da avó e da mãe quando era pequena. É algo que temos muito dentro de nós; essa afinidade é totalmente natural.

 

Atuaram nalguma ocasião lá?

Sim, ainda que adoramos Portugal e gostaríamos de atuar bem mais no país. Estivemos há pouco tempo num festival em Almodóvar, a partilhar vivências e palco com adufeiras de ali e gente do Alentejo. Estivemos também em Braga, Grândola, Paredes de Coura, Porto e Monção.  Queremos Portugal inteiro porque é onde melhor nos sentimos fora de casa. É a nossa casa também.

 

Vamos voltar às origens: de onde procede o nome do grupo?

Encontramos o nome do grupo a pensar em nomes de plantas. Estávamos a procurar o nome de uma planta porque as mulheres de Malvela estão muito implicadas na vida do campo e pensamos que seria um detalhe bonito. Julia, uma das primeiras integrantes que agora já não está no grupo, foi quem preparou uma lista com nomes. Realizamos uma votação e tentamos que a escolha estivesse relacionada de alguma maneira com o grupo. A malvela é uma planta que tem muito a ver com a mulher, devido à sua utilização para as dores menstruais e de parto. Pareceu-os bonito, soava bem, e portanto ficou.

 

Quantas pessoas integram Malvela?

Por volta de vinte pessoas, entre músicos e vozes. Às vezes é complicado pensar nesse número, já que há pessoas que infelizmente já não estão, mas para mim é como se ainda estivessem. É complicado contar.

 

São todas de Sanguinheda?

Quase todas, mas temos integrantes de Redondela, das Pontes e do Porrinho.Temos também uma de Tui e outra de Ponte Areias. Contudo, a maior parte das mulheres são de Mós e no início eram todas do concelho. Fomos alargando a família e chegou gente da contorna.

 

Pode falar-nos de cada uma delas e apresentá-las?

É difícil, são muitas. Temos a minha mãe, desde o inicio. Fita é energia pura, sempre preocupada pelos detalhes. Quem nos dera, a cada uma das filhas, ser como ela e ter essa força! É fantástica.

Temos a Teresa, também de Sanguinheda; é coração puro. A Adela tem um mestrado em motocultivador, já que sempre está a trabalhar no campo e nunca está com frio.

 

No nosso programa queremos lembrar uma das figuras mais emblemáticas de Malvela, a senhora Carmen, que nos deixou há três anos. Fale-nos um pouco dela.

A senhora Carmen era uma avó para nós. Sentimos muito a sua ausência; era doçura personificada. Aprendemos muito dela e tinha uma voz excecional, mas o mais importante é que tinha um coração enorme e sentimos muito a falta dela. De qualquer maneira, temos que continuar e assumir essas faltas. Penso que continua connosco e que está a transmitir-nos a doçura e a energia que tinha na voz e que nos surpreendia tanto. Sempre a recordamos com muito afeto.

 

Sendo um grupo tão numeroso, como organizam os ensaios? Continuam a ir à casa de alguma das integrantes?

Estamos a ensaiar na casa da Aurita, uma das Malvela. Abrem-nos as portas de um modo espetacular e durante o inverno tem sempre preparado uma aquecedor de lenha; prende o lume e coloca a aquecer uma panela com água e eucalipto. Tratam-nos como rainhas.

 

Ainda contando com o reconhecimento do mundo da música, as integrantes de Malvela continuam vinculadas à vida da aldeia?

Há muita variedade, mas regra geral sim. A Clara adora fazer o pão de milho e estou a lutar para que nos faça uma sessão, dado que ela realiza o processo inteiro: mói, amassa e faz os pães. É uma experiência fantástica, um luxo.

Todas têm as suas leiras e trabalham; são polifacéticas, agora trabalham na leira e amanhã vão a um curso de pintura ou dançar zumba. Participam de tudo quanto lhes é proposto e não têm inconveniente em fazer a mala e ir de turnê. Têm uma grande vitalidade e uma filosofia de vida interessante. Há uns dias, quando falava das excursões para a terceira idade, a Aurita dizia: «eu não penso deixar de fazer nada em quanto puder, porque é o que levamos desta vida.  Não penso ficar na minha casa se for capaz de sair e de ir a concertos».

 

Compor a sintonia da série Padre Casares implicou uma grande mudança na trajectória do grupo?

Não, realmente. O Pirimpimpín é um tema muito pedido e temos uma coreografia especial para o palco, mas isso já era anterior a Padre Casares. A série contribuiu para que a canção se tornasse mais popular, com uma versão um pouco diferente, mas o Pirimpimpín já existia antes de Padre Casares e continua a ser conhecido apesar de que a série já há tempo que acabou. Às vezes gostaríamos que fosse de outra maneira, porque repetir continuamente o mesmo tema cansa e preferimos renovar, mas às vezes não nos permitem fazer outra coisa, do mesmo modo que o Manolo Escobar que catava mi carro foi embora com a sua carroça. É um dos temas que nos acompanha.

 

Malvela interpreta temas tradicionais, mas também temas novos. Quem compõe essas letras e essas melodias?

Para a letra acudimos ao arquivo das nossas senhoras de idade. A senhora Dorinda, mãe da Clara e avó da Carmiña, ensinou-os muitas coplas durante os ensaios em quanto esteve connosco. As próprias integrantes também contribuem com letras tradicionais. A base é o tradicional, ainda que depois introduzimos inovações.

Quanto à música, temos música tradicional e de autor. Raquel Domínguez, Uxía e eu temos composto temas para as Malvela. Para este novo trabalho estamos a preparar coisas novas: temos um tema do Paulo Nogueira, de Treixadura, que vai surpreender. Não sei se vai ser mais conhecido que o Pirimpimpín, mas penso que sim.

 

Quando vai ser publicado?

Boa pergunta! Espero que seja sem demora! No máximo, devia estar no Natal. Estamos a cozinhar a fogo lento mas seguro.

 

Estão a atuar também ao vivo ou estão imersas na preparação do trabalho?

Continuamos, não é incompatível. Vamos aonde nos chamam. De facto, é o que preferem elas; os discos são bonitos, mas preferem atuar com público e partilhar experiências nos ensaios. Por esse motivo, decidimos alterar a forma de gravar, pois os discos anteriores foram todos em estúdio, mas o último já decidimos gravá-lo ao vivo. A energia que possuem transforma-se perante o público e conseguem transmitir essa alegria. Estamos a pensar em gravar o próximo trabalho do mesmo modo, porque pensamos que é como se sentem mais confortáveis.

 

Onde atuaram nos últimos tempos?

Muito perto, em Valadares. Também em Almodóvar, nas Neves e em Cambados; deslocamo-nos bastante pela zona, mas já estivemos em muitos sítios no exterior. Fomos a Buenos Aires, mas já há bastante tempo disso. A mobilidade de alguma das integrantes já não é a mesma e preferimos estar aqui na zona.

 

Onde vão estar nas próximas datas?

Sei que há uma em Mondariz. Agora não lembro mais, dado que estamos concentradas na gravação e a maioria já são no Verão.

 

Esperamos que entre esses lugares esteja incluída Burela, dado que já há nove anos que não nos visitam.

Se nos chamarem de lá, estaremos felizes de ir.

 

E nós de recebê-las.

Temos que contar uma situação anedótica de quando estivemos em Burela. Chegamos muito tarde a casa e uma das integrantes já não se deitou porque era hora de levantar-se. Chegou e decidiu ir varrer as folhas que havia fora da casa. Estas mulheres são assim, vitais.

 

Realmente.

Eu não me tinha em pé e pensava: como é capaz? A filha contou-nos que não se deitou e o marido assustou-se ao acordar e ver que não chegara.

 

Ana, antes de finalizar a entrevista temos outra perguntinha. Queríamos que nos sugerisse meia dúzia de canções do nosso mundo: de Portugal, do Brasil, da Galiza… quais são as suas referências musicais?

É complicado resumi-lo tanto, são muitas. Da Galiza, a Uxía é uma referência indiscutível. Criei-me com a sua voz e partilhamos muitas canções. Guadi Galego e Xabier Díaz, Treixadura, Leilía… muitos mais. Do Brasil, Chico César, Caetano Veloso, Toquinho, Elis Regina, Chico Buarque, Lenine, Adriana Calcanhoto, Zeca Baleiro, Gilberto Gil, Fred Martins (que o temos aqui pertinho e é uma delícia escutá-lo cantar)… De Portugal, o grande José Afonso, o João Afonso, Filipa Pais, Carlos do Carmo, Luiz Caracol ou Sérgio Godinho. Celina da Piedade, por ser um amor de pessoa e ter uma voz excelente, é uma referência indiscutíbel para Malvela e para mim.

 

E da África?

Eneida Marta, Jon Luz… muitíssimos.

Toda esta é a música que escuto: portuguesa, brasileira, de Cabo Verde… e galega, evidentemente.

 

O nosso Edilson está a sorrir porque é caboverdiano.

Estive em Cabo Verde e fiquei apaixonada.

 

É uma terra muito bonita.

Lembro daquelas noites de música ao vivo; vive-se de um modo especial. Tenho que regressar.

 

Muito obrigado, foi um grandísimo prazer falar consigo e mandar abraços fraternais para todas as Malvela.

Muito obrigada por lembrar-vos de Malvela. Estivemos hoje ensaiando e disseram-me que vos dedicássemos um aplauso enorme. Adoram que haja programas como este que colocam em destaque a nossa música e as músicas irmãs da Lusofonia.

 

Muito obrigado.

Obrigadas nós!

 

Boa noite e muito sucesso!

Para vós também, muito sucesso com o programa.

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